A atual proprietária já não o queria mais. Havia décadas que sequer o colocava no console. Costumava assoprá-lo antes de colocá-lo. Tratava-o com todo o carinho e cuidado do mundo.
O único problema era que ele já estava velho, sem graça, e todas as marcas deixadas pela ex-proprietária já estavam mais que evidentes, pois mesmo com todos aqueles mimos o tempo foi desgastando a relação dos dois. Ela tornou-se desleixada, e ele já não ligava mais se funcionava ou não, dando glitches o tempo todo. Caiu na mesmice. Os dungeons eram os mesmos, as cutscenes engraçadas eram as mesmas, o gameplay era o mesmo... Além do mais haviam cartuchos novos nas prateleiras das lojas. Por quê ficar com algo que já é pra lá de conhecido e inútil, afinal?
A ex-proprietária era um tanto quanto saudosista. Vendeu o coitado para adquirir um mais antigo ainda, de coleção. Dizia ela que a aquisição sempre foi o xodó dela. E ela tinha lá suas razões.
A atual disse aos amigos que o amava, que era tudo que ela precisava para ter bons momentos. Mas tudo isso era passageiro, e mal sabia ela.
Depois de pensar bastante sobre o assunto, a dona resolveu se desfazer do pobre coitado, que agora encontrava-se numa caixa de papelão socada bem no catinho humilde da mesa da venda de garagem.
Mas mesmo com todas as marcas, poeira e adesivo descolado, a fita ainda espera por alguém que reconheça seu valor, e torce para que a dona mude de idéia.
Agora imagine que não é um cartucho.

Meus parabéns. Belíssimo texto. Simples, com boas metáforas e muito tocante! Adorei.
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