terça-feira, 19 de março de 2013

Fila de Espera

- Então quer dizer que temos de enfrentar toda essa fila?
- Exatamente.
- E qual seu número?
- 130.784.204.
- É. Estou alguns bons números atrás de você. Zona?
- BRSMGBH-506.
A minha é BRSSP2-507, mas por algum motivo, a sua me soa familiar. Acho que, passando o olho pelo Diário do Amanhã, vi esse destino aí.
- É. Tem muita gente indo pra essa região. No meu caso, só estou de passagem.
- Como você sabe?
- O cabeludão me disse que tinha um propósito especial para mim, mas não consegui entender uma palavra do que ele disse com todo aquele linguajar rebuscado dele. Me disse que eu teria uma irmã, mas não sei se vou poder ficar por lá pra cuidar dela.
- Entendo.
- Pois é.


(...)


- Tem algo que eu possa fazer por você?
- Eu gostaria que alguém tomasse conta da minha irmãzinha por mim, caso eu não esteja por perto. Seria eternamente grato e retribuiria assim que nos encontrássemos novamente.
- Ficaria muito feliz em poder ajudá-lo. Pode contar comigo. Sua irmã estará em boas mãos.
- Muitíssimo obrigado, amigo.
- De nada, meu caro. A propósito, desculpe minha falta de educação. Sou Victor, prazer em conhecê-lo.
- O prazer é meu, chará.

sábado, 16 de março de 2013

The Helpless Princess

   Once upon a time there was a brave, handsome, polite knight who was supposed to rescue the princess from the depths of the dark dungeons. She was kidnapped by some kind of mysterious kidnapper who trapped her in a pitch black cell. Although, the kidnapper wasn't there anymore, but the princess had scars from what happened to her and because of that she couldn't keep going with her life. So she chose to live in the cell for the rest of her life.
   After a week riding on his horse, the brave knight reaches the dungeon.
   He walked close to the door, knocked three times and waited for an response.
- Who's there?
- It is I, Leon Von Hildegard, the brave fencer! I came to rescue you, princess.
- I don't wanna leave. I don't wanna get hurt again.
- Don't say that, lady. Things are different now, just try to look from outside the window. The sun is bright, the grass is green like it never was before... Your kingdom has prospered!
- I don't care. I rather stay here than trust someone else again. The last man who tried to help me broke my heart and kept me trapped in this very cell. Besides, I'm already used to it. It's easier to stay that way.
- What about if I tell you that there's somebody out there that you can trust and will be always by your side?
- There's no such thing. And who might be the one?
- It is me, princess. I came here every single week to check if you're okay and you don't even remember me. All this time I've been telling you that this deep, dark dungeon is just a product of your mind toying with you. You're very close to the exit, but you're the only one who just doesn't seem to notice it, and that's why I'm here to help.
- But I'm not sure if I can trust someone else again.
- Don't worry. Just get out of here and let me teach you how to live again.

Ladrão de Conhecimento

   Wellerson teve a má sorte de nascer no corpo de um menino de rua. Desde criança apresentava traços de uma inteligência fora do comum, mesmo sem ter educação formal. A mãe morava debaixo do viaduto, o pai saía por aí coletando latinhas e os três irmãos estavam envolvidos com o tráfico de drogas. Mas não ele. Recusava-se a cometer crimes que prejudicassem o outro. Por isso sempre era julgado pelo resto da família. Por ser diferente.
   O único crime que cometia, de fato, era o roubo... roubava materiais didáticos dos mais diversos, e aventurava-se lendo livros de física e matemática debaixo da ponte, e sabia exatamente como usar tal conhecimento para planejar melhores e mais eficientes roubos.
   Calculava o ângulo e o ponto mais alto da trajetória que a pedra faria antes de acertar a mochila do playboyzinho que saía da escola, a velocidade média que teria de fazer num determinado perímetro do quarteirão para que pudesse escapar ser correr o risco de ser pêgo.
Sabia do relevo de morros da cidade, e por isso levava em conta a topografia do local em suas rotas de fuga. Tinha conhecimento de materiais que eram isolantes térmicos e (roubava-os e) usava-os para construir pequenos abrigos para sua família, acendia fogo com dois galhos secos como ninguém, conhecia processos simples de filtração de água, doenças que poderiam potencialmente afetá-lo e à sua família e como evitá-las... E tudo isso sem nem ter pisado numa sala de aula.
   Aos dezoito anos de idade surpreendeu a toda uma sociedade quando foi aprovado em primeiro lugar na maior universidade do país. Foi notícia de jornais, revistas, programas de televisão e de rádio. 
   Infelizmente, seus irmãos não tiveram tanta sorte. Todos faleceram em confrontos com policiais.
   Seus pais agora têm uma humilde casa no subúrbio. Nada de extraordinário, mas foi o que o trabalho duro deles durante toda uma vida pôde comprar.
   Wellerson, por outro lado, formou-se e hoje leciona física quântica em Harvard. É bem casado, tem dois filhos e vive uma vida feliz e repleta de fartura.

Ah, Wellerson. Gostaria que existissem mais "pivetes" como você.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Roma

Até hoje, nos meus sonhos mais profundos e obscuros, consigo me lembrar de você e todo aquele tempo que passamos juntos, e o quão tudo aquilo significou para mim. 
São memórias que não se apagam, de momentos tão terríveis e desconfortantes que só de moldar-te em minha mente já me dá arrepios. Alta, olhos claros que pareciam penetrar cada canto do meu consciente, longos cabelos loiros, paciente ao ponto de ser perturbadora, extremamente dependente e fria. Tão fria até as flores que eu te dei implodiram quando lhe entreguei.
Sinto falta de você sendo mesquinha. De você sendo você, mesmo com todas suas qualidades.
Posso até ser um bom escritor, como de fato sou. Mas a única coisa que realmente importa é a maneira com que guardamos tudo o que sentimos, não importa o quão bom seja. E pelo menos nesse quesito não sou nem um pouco realizado.
Talvez, num outro tempo, numa outra vida, a gente se decifre.

(...)

Quer dizer, isso se você se deixar ser decifrada.