sábado, 16 de março de 2013

Ladrão de Conhecimento

   Wellerson teve a má sorte de nascer no corpo de um menino de rua. Desde criança apresentava traços de uma inteligência fora do comum, mesmo sem ter educação formal. A mãe morava debaixo do viaduto, o pai saía por aí coletando latinhas e os três irmãos estavam envolvidos com o tráfico de drogas. Mas não ele. Recusava-se a cometer crimes que prejudicassem o outro. Por isso sempre era julgado pelo resto da família. Por ser diferente.
   O único crime que cometia, de fato, era o roubo... roubava materiais didáticos dos mais diversos, e aventurava-se lendo livros de física e matemática debaixo da ponte, e sabia exatamente como usar tal conhecimento para planejar melhores e mais eficientes roubos.
   Calculava o ângulo e o ponto mais alto da trajetória que a pedra faria antes de acertar a mochila do playboyzinho que saía da escola, a velocidade média que teria de fazer num determinado perímetro do quarteirão para que pudesse escapar ser correr o risco de ser pêgo.
Sabia do relevo de morros da cidade, e por isso levava em conta a topografia do local em suas rotas de fuga. Tinha conhecimento de materiais que eram isolantes térmicos e (roubava-os e) usava-os para construir pequenos abrigos para sua família, acendia fogo com dois galhos secos como ninguém, conhecia processos simples de filtração de água, doenças que poderiam potencialmente afetá-lo e à sua família e como evitá-las... E tudo isso sem nem ter pisado numa sala de aula.
   Aos dezoito anos de idade surpreendeu a toda uma sociedade quando foi aprovado em primeiro lugar na maior universidade do país. Foi notícia de jornais, revistas, programas de televisão e de rádio. 
   Infelizmente, seus irmãos não tiveram tanta sorte. Todos faleceram em confrontos com policiais.
   Seus pais agora têm uma humilde casa no subúrbio. Nada de extraordinário, mas foi o que o trabalho duro deles durante toda uma vida pôde comprar.
   Wellerson, por outro lado, formou-se e hoje leciona física quântica em Harvard. É bem casado, tem dois filhos e vive uma vida feliz e repleta de fartura.

Ah, Wellerson. Gostaria que existissem mais "pivetes" como você.

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